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Bastidores

O homem da super quarta: quem é Kevin Warsh, o primeiro presidente pró-cripto do Fed

Empossado há menos de um mês pela margem mais apertada da história, Warsh conduz hoje seu primeiro FOMC de peso. Falcão que virou defensor de cortes, crítico ferrenho do próprio Fed, escolhido por Trump mas jurando independência — entenda a trajetória e a mentalidade do banqueiro central mais observado do mundo.

Por que ele importa hoje

Nesta quarta-feira — a "super quarta" do mercado —, o Federal Reserve anuncia sua decisão de juros. Quem preside a reunião é Kevin Warsh, empossado como 17º presidente do Fed em 22 de maio de 2026, no lugar de Jerome Powell. É o seu primeiro FOMC de grande impacto, e o mercado vai ler cada palavra à procura de pistas sobre o rumo dos juros americanos — que, como mostram as outras matérias desta edição, mexem com tudo, do Bitcoin aos ETFs.

A trajetória: de Wall Street ao mais jovem governador da história

Warsh, nascido em 1970 em Albany (Nova York), formou-se em políticas públicas em Stanford e em Direito em Harvard. Começou na Morgan Stanley, na área de fusões e aquisições, antes de servir como assessor econômico no governo George W. Bush. Em 2006, foi nomeado para o conselho de governadores do Fed aos 35 anos — o mais jovem da história a ocupar o posto. Atravessou a crise de 2008 ao lado de Ben Bernanke, no centro das decisões de emergência que socorreram o sistema bancário.

Deixou o Fed em 2011 — em protesto contra a segunda rodada de afrouxamento quantitativo (o QE-2), que considerava um erro semeador de inflação. Depois, passou pelo family office Duquesne e pela Hoover Institution, de Stanford. Um detalhe que diz algo sobre seu trânsito de elite: é casado com Jane Lauder, herdeira da Estée Lauder.

A confirmação mais apertada da história

Indicado por Trump em janeiro, Warsh foi confirmado pelo Senado por 54 a 45 — a votação mais dividida já registrada para um presidente do Fed. A queda de braço foi intensa: Trump fez campanha aberta de pressão sobre o Fed, o Departamento de Justiça chegou a abrir uma investigação sobre o banco central, e a confirmação só destravou depois que a apuração foi encerrada. Para preservar a instituição, Powell tomou uma decisão atípica: permaneceu no conselho mesmo após deixar a presidência, mantendo voto no comitê de juros.

A mentalidade: o falcão que mudou de tom

Aqui mora a parte mais debatida. Na sua passagem como governador (2006-2011), Warsh tinha fama de falcão — avesso à inflação, defensor de juros mais apertados. Mas, mais recentemente, passou a defender cortes de juros, alinhando-se à preferência de Trump. Sua justificativa é uma tese específica: a de que a inteligência artificial vai elevar a produtividade e derrubar a inflação, abrindo espaço para o Fed afrouxar. Nem todos no comitê concordam — Austan Goolsbee, do Fed de Chicago, argumenta o oposto, que o boom de IA pode gerar mais inflação.

Além dos juros, Warsh defende uma espécie de "regime change" no Fed: um banco central mais enxuto, focado estritamente em estabilidade de preços, que abandone o que ele chama de "mission creep" — a entrada em temas como clima e pautas sociais. Ele resume sua filosofia em frases de efeito como "inflação é uma escolha", e quer reduzir gradualmente o balanço de US$ 6,7 trilhões do Fed.

Sobre o ponto mais sensível — a independência —, sua posição é sutil e gera tanto elogio quanto desconfiança. Ele jura nunca "predeterminar" os juros a pedido de Trump e diz que a independência da política monetária é "essencial". Mas a enxerga não como um fim em si, e sim como um meio para alcançar bons resultados — argumentando que, quando o Fed se desvia do mandato, é legítimo que o Congresso queira opinar. Críticos foram diretos: durante a sabatina, um senador perguntou se ele seria "o boneco de ventríloquo do presidente". Defensores, como o professor Randall Kroszner, retrucam que Warsh é "um pensador estratégico de longo prazo" que não cederia a pressão política de curto prazo.

O ângulo cripto (que liga esta edição)

Há um superlativo que torna Warsh especialmente relevante para o mercado de hoje: ele é o primeiro presidente declaradamente pró-cripto da história do Fed. Já afirmou que o Bitcoin não ameaça a capacidade do banco central de conduzir a economia — e que pode até ajudar a leitura de quando agir. Num momento em que ETFs de Bitcoin desembarcam na B3 (como o GBIT11, da Galapagos) e em que a maior IPO da história carrega bitcoins em tesouraria, ter um pró-cripto no comando do Fed é um sinal de época.

Veredito editorial

O que pensamos

A grande incógnita de Warsh não está no currículo — impecável — e sim na coerência. Suas posições sobre inflação acompanharam, ao longo de duas décadas, quem ocupava a Casa Branca, o que alimenta a dúvida sobre se ele será o falcão independente que promete ou um executor da agenda de Trump. Há um argumento contraintuitivo a favor dele: justamente por vir do mercado e ter histórico de falcão, pode acabar mais duro com a inflação do que o próprio presidente gostaria. A "super quarta" de hoje é o primeiro teste público dessa tensão — e o mercado vai medir não só o que ele decide sobre os juros, mas o tom com que sinaliza o futuro. Independência se prova no detalhe, e é no detalhe que estaremos de olho.

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