Trajetória até a presidência do BC

Gabriel Muricca Galípolo construiu sua trajetória pública entre a iniciativa privada (foi sócio do Banco Fator) e o governo. No primeiro mandato Lula, em 2008, atuou como assessor especial do ministro da Fazenda. Voltou ao governo em 2023, na gestão Haddad, como secretário-executivo da Fazenda.

Em 2024, foi indicado para diretor de Política Monetária do Banco Central. A sucessão de Roberto Campos Neto, cujo mandato terminou em dezembro de 2024, era esperada e foi conduzida sem sobressaltos institucionais.

O contexto que herdou

Quando Galípolo assumiu a presidência, a Selic estava em 15% ao ano — o maior patamar desde 2006. O ciclo de aperto monetário iniciado em setembro de 2024 incluiu 11 elevações consecutivas. A herança incluía inflação acima do teto, câmbio volátil e expectativas desancoradas no Focus.

O ciclo de afrouxamento sob seu comando

Em 18 de março de 2026, o Copom presidido por Galípolo cortou a Selic em 0,25 ponto percentual, levando-a a 14,75% — primeira queda em quase dois anos. Em abril, repetiu o movimento, levando a taxa a 14,5%. Ambas as decisões foram unânimes.

A leitura editorial do mandato até aqui passa por três pontos:

1. Cautela na comunicação. A introdução do termo "ciclo de calibração" no comunicado de março — em vez de "ciclo de cortes" — foi uma escolha deliberada. Mantém aberta a possibilidade de pausar ou reverter sem precisar admitir mudança de rota.

2. Unanimidade nas decisões. As duas reduções foram unânimes entre os sete diretores do Copom, mesmo com dois cargos formalmente vagos.

3. Diálogo institucional com a Fazenda. Diferentemente do período Campos Neto-Haddad, marcado por embates públicos, a relação atual com a Fazenda é descrita como tecnicamente alinhada — sem comprometer formalmente a autonomia operacional do BC.

Os desafios à frente

O mandato entra agora em sua fase mais delicada. Quatro frentes simultâneas exigirão calibragem fina:

Inflação acima do teto. O IPCA projetado para 2026 está em 4,86% segundo o Focus — acima do teto da meta de 4,5%.

Guerra no Oriente Médio. O Estreito de Ormuz fechado há cerca de dois meses pressiona combustíveis e alimentos.

Eleição 2026. O segundo semestre traz a fase ativa da disputa presidencial.

Reposição de diretores. Dois mandatos vagos no Copom ainda aguardam indicação.

A medida do mandato Galípolo não será dada pelo tamanho dos cortes, mas pela capacidade de manter o ciclo crível em meio a pressões cruzadas.

O perfil técnico

Economista pela UFRJ com mestrado pela Unicamp, Galípolo é descrito por colegas como tecnicamente sólido e politicamente articulado. Crítico em entrevistas recentes ao que classifica como excesso de prêmio fiscal embutido na curva de juros, ele tem defendido a tese de que parte da Selic alta é "fiscal" e não "monetária".