O Comitê de Política Monetária do Banco Central reduziu, por unanimidade, a taxa Selic em 0,25 ponto percentual em sua reunião de abril, levando-a a 14,5% ao ano. Foi a segunda queda consecutiva, depois de um ciclo de 11 elevações entre setembro de 2024 e março de 2025 que levou a taxa básica ao patamar de 15%, o maior desde julho de 2006.
A decisão veio em linha com o consenso do mercado, mas três elementos do comunicado merecem atenção: a unanimidade, o ritmo escolhido (0,25 ponto em vez dos 0,50 inicialmente esperados) e a manutenção do termo "calibração" para descrever os próximos passos. Cada um desses elementos é uma mensagem — e nenhuma delas é casual.
O que o mercado espera para os próximos 12 meses
Segundo o Boletim Focus mais recente, o mercado projeta:
- Selic em 12,25% até o fim de 2026, o que implica cortes adicionais nas próximas reuniões.
- 10,5% em 2027, com queda mais lenta no segundo semestre.
- 9,88% em 2028, considerando normalização gradual da política monetária.
Para o PIB, expectativa de crescimento de 1,85% em 2026 e mesma marca em 2027. Para o câmbio, dólar a R$ 5,50 no fim do ano — projeção que se mantém estável por 12 semanas consecutivas.
A palavra "calibração" e o que ela esconde
Vale destacar a engenharia da linguagem. No comunicado de março, o BC introduziu a expressão "ciclo de calibração", em vez do tradicional "ciclo de cortes" ou "ciclo de afrouxamento". A escolha não é aleatória.
"Calibração" é um termo neutro em relação à direção. Pode significar cortar mais, cortar menos, manter, ou até voltar a subir. Dá ao BC liberdade total para ajustar a rota sem precisar admitir mudança de plano. É a versão técnica de "estamos analisando".
Para o investidor, a leitura prática é: o BC não se comprometeu com nada. Os 12,25% projetados pelo Focus são uma expectativa de mercado, não uma promessa do Banco Central.
O que pode frear o ciclo
Inflação acima do teto da meta. O IPCA acumulado em 12 meses está em torno de 4,86%, segundo as últimas projeções do Focus, acima do teto da meta de 4,5%. O sistema de meta contínua, vigente desde 2025, apura mês a mês.
Guerra prolongada no Oriente Médio. O Estreito de Ormuz segue fechado há cerca de dois meses. Cada semana adicional pressiona combustíveis, alimentos e a expectativa de inflação.
Eleição 2026. A disputa presidencial entra em fase ativa no segundo semestre. Anos eleitorais historicamente trazem prêmio de risco maior para a curva de juros futuros.
O que observar nas próximas reuniões
As próximas duas reuniões do Copom serão decisivas. O que vai pesar: o comportamento do IPCA cheio, a evolução da guerra no Oriente Médio, o Boletim Focus, e a indicação de novos membros do Copom (dois mandatos vagos desde dezembro de 2025).
Por ora, o cenário-base é o do Focus: Selic em 12,25% até dezembro de 2026. Mas a palavra "calibração" no comunicado do BC é um lembrete: o caminho não está garantido.