Tem coisa que o Brasil faz bem feito. Exportar commodity, por exemplo. E, recentemente, exportar empresa.

Segundo dados publicados pelo Poder360 em maio de 2026, mais de 232 empresas brasileiras já produzem no Paraguai sob o regime da Lei de Maquila. Quarenta delas iniciaram operações de 2023 pra cá. As exportações dessas maquiladoras brasileiras bateram US$ 1,26 bilhão em 2025 — número que deve ser superado neste ano. Cerca de 25 mil empregos foram transferidos do Brasil para o país vizinho, conforme estimativa do governo paraguaio até março.

Pra dimensionar: 69% de todas as indústrias maquiladoras instaladas no Paraguai hoje são de origem brasileira. O Paraguai tem um polo industrial brasileiro fora do Brasil. Repete devagar.

A regra do jogo

A Lei de Maquila existe desde 1997 e foi reformada em 2025 para ampliar prazos (20 anos de benefício, renovável) e incluir serviços além da produção física. O regime permite importar máquinas, matéria-prima e insumos com imposto zero, desde que a produção seja destinada à exportação. O imposto sobre o valor agregado: 1%. Carga tributária total pode ser até quatro vezes menor que a brasileira, e a redução de custos operacionais chega a 40%, segundo levantamentos do mercado.

Há ainda o detalhe de que o principal destino das exportações dessas maquiladoras é... o próprio Brasil. Ou seja: empresa brasileira sai do Brasil, monta operação no Paraguai, e exporta de volta pro Brasil pagando 1% de imposto onde antes pagava muito mais. Eficiência tributária, dizem os consultores.

Quem está indo

A Camil comprou a Rice Paraguai e a Villa Oliva Rice. A Nestlé não mudou a produção, mas levou pro Paraguai sua área de suporte administrativo — encargos trabalhistas menores. A japonesa Yazaki, a sul-coreana TNT Auto Parts e a alemã Kromberg & Schubert, todas com forte operação no Brasil, transferiram parte da produção. A Leoni tem planta em San Lorenzo produzindo sistemas de fiação automotiva. A Fiasul investiu US$ 3 milhões. Têxteis, calçados, autopeças, metalurgia, plásticos, químicos.

Seis empresas brasileiras investiram mais de US$ 182 milhões — perto de R$ 1 bilhão — no Paraguai entre 2025 e 2026. Não é exatamente movimento marginal.

A leitura editorial

A retórica oficial sobre "custo Brasil" virou anedota nos painéis de Faria Lima. A pergunta que ninguém quer responder em voz alta é por que essa migração continua acelerando justamente em ano de reforma tributária aprovada — supostamente desenhada para reduzir a complexidade que motiva esse êxodo.

A resposta provavelmente está no descompasso entre o que a reforma promete pra 2033 (quando a transição estará completa) e o que as empresas precisam decidir agora, em 2026, sobre onde alocar capital pelos próximos dez anos. Confiar no calendário brasileiro nunca foi a melhor aposta de gestão de risco.

Edmundo Lima, diretor executivo da ABVTEX, foi direto ao tratar do setor têxtil em entrevista ao Poder360: a diferença de custos é o fator decisivo. Não é ideologia, não é falta de patriotismo, não é dúvida sobre o Brasil. É planilha. E planilha aqui não tem opinião — só conta.

A 232ª empresa que cruza a Ponte da Amizade está fazendo um cálculo que o Brasil ainda não aprendeu a desfazer.

Enquanto isso, o tema, segundo o próprio Poder360, "já aparece na pré-campanha presidencial de 2026". Vai entrar na agenda. Vai virar bandeira. Vai virar promessa. E provavelmente vai continuar acelerando, porque o Paraguai estendeu o prazo da Maquila pra 20 anos — três mandatos presidenciais brasileiros à frente.