Tem uma seção nova nos call de resultado de 2026 que merece estudo apartado: a justificativa da redução de quadro. Onde antes se dizia "reestruturação", "ajuste de eficiência" ou "otimização operacional", agora aparece uma sigla com mais carisma de mercado: IA.
Em março, a Stone anunciou o desligamento de cerca de 370 funcionários, segundo apuração do site Startups. Conforme a reportagem, com base em relatos de ex-funcionários, aproximadamente 20% do time de tecnologia da fintech foi impactado. A empresa, em comunicado interno, citou redução de custos e oportunidade de uso de inteligência artificial entre os motivos do movimento. O ano de 2025 fechou com lucro líquido abaixo do esperado e a companhia trocou a liderança em janeiro de 2026 — o CFO Mateus Scherer assumiu como CEO. A ação fica pressionada desde então.
Não é caso isolado.
O playbook de 2026
O iFood, há alguns anos, já havia feito um movimento parecido em escala equivalente — 355 desligamentos, conforme nota oficial divulgada na época, com justificativa que mencionava "atual cenário econômico mundial". Em fevereiro, a Mercado Livre também passou por rodada de cortes, segundo cobertura de mídia especializada.
Globalmente, o roteiro é conhecido. A Amazon demitiu 14 mil pessoas no fim de 2025, com discurso de investimento em IA. Microsoft, Google, Meta — todas com episódios similares no período. A justificativa de "uso de IA para ganho de produtividade" virou linguagem corporativa padrão em 2025 e 2026.
O que está realmente acontecendo
A leitura editorial aqui exige cuidado. Não cabe atribuir motivações que as empresas não declararam. Mas é legítimo observar o padrão.
Empresa de capital aberto com lucro abaixo do esperado tem dois caminhos: aumentar receita ou reduzir custos. Em ambiente de Selic a 14,5%, com inflação acima do teto da meta e PIB projetado em 1,85%, aumentar receita é difícil. Reduzir custos é executável no curto prazo — e custo de pessoal é, tipicamente, a maior linha do P&L de empresas de tecnologia.
O detalhe é que "demitir para cortar custo" e "demitir porque a IA agora faz" geram recepções muito diferentes em uma teleconferência de resultados. A primeira soa defensiva. A segunda se conecta com a narrativa de transformação digital, com a tese de eficiência operacional, com o discurso do mercado em 2026. É enquadramento, não falsidade — mas vale observar a diferença, porque ela explica boa parte da escolha de palavras nos comunicados.
O efeito no mercado de trabalho brasileiro
O efeito agregado dessas decisões individuais começa a aparecer em dados públicos. O Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (Caged) mostra desaceleração na criação de vagas em tecnologia desde o segundo semestre de 2025. Plataformas de monitoramento, como o site Layoffs Brasil, mantêm registro consolidado das demissões em massa anunciadas no país — número que cresceu em 2026.
Para o profissional individual, o efeito é claro: o mercado de tecnologia, que entre 2020 e 2023 funcionou como porto seguro de empregabilidade, perdeu essa característica. Para o investidor de empresas listadas que fizeram cortes, o resultado costuma aparecer no preço da ação no curto prazo (positivo, pelo corte de custo), mas tem implicações mais difíceis de medir no longo prazo — entregabilidade, qualidade de produto, atração de talento.
A pergunta que importa
Se a IA realmente estivesse fazendo o trabalho de equipes inteiras com a mesma eficiência, a qualidade dos produtos estaria igual ou melhor. A evidência empírica que começa a se acumular — em produtos que ficam piores, em times sobrecarregados, em retrabalho — sugere que parte do que está sendo chamado de "automação por IA" é, na prática, simplesmente trabalho não feito.
Isso não desqualifica a IA como tecnologia, nem como vetor real de produtividade. Desqualifica, sim, o uso da IA como retórica de PowerPoint para justificar decisões que têm motivação mais prosaica.
A IA chegou na Faria Lima. Mas chegou primeiro na linguagem das justificativas — e só depois (talvez) nas operações.
O cenário macroeconômico ajuda a entender o contexto. Com Selic alta, captação cara e mercado de capitais ainda tímido para tech, a pressão por demonstrar resultado é real. As decisões são compreensíveis. Mas a transparência sobre os motivos — essa, segue sendo opcional.