Toda discussão sobre a saúde financeira dos estados brasileiros tende a virar briga política antes do terceiro parágrafo. Em ano eleitoral, então, a tentação de transformar número fiscal em palanque é quase irresistível. Esta análise faz o contrário: usa a régua técnica que já existe, mostra a nota de cada estado e deixa a leitura política de fora. A régua se chama Capag.

A Capacidade de Pagamento — Capag — é a nota que a Secretaria do Tesouro Nacional atribui a cada estado, de A a D, para medir o risco associado ao seu endividamento. Funciona como o rating de uma empresa, só que para entes federativos. Nota A significa um estado que poderia, em tese, contratar nova dívida com garantia da União sem comprometer as contas. Nota D é a pior classificação: o estado não tem espaço fiscal e depende de socorro para não travar.

Comecemos pelo mapa. Esta é a nota de cada unidade da federação na avaliação mais recente do Tesouro (ano-base 2024), com os quatro estados em Regime de Recuperação Fiscal destacados:

Figura 1 · O mapa
A nota Capag de cada estado
Avaliação do Tesouro Nacional, ano-base 2024. Borda marca os 4 estados em Regime de Recuperação Fiscal.
A / A+ — boa capacidade B / B+ — intermediária C — baixa D — sem capacidade
PRA+
Paraná
BAA
Bahia
ESA
Espírito Santo
MSA
M. G. do Sul
MTA
Mato Grosso
CEA
Ceará
GOB+
Goiás · RRF
SPC
São Paulo
MGC
Minas Gerais · RRF
RJC
Rio de Janeiro · RRF
RSD
R. G. do Sul · RRF
Notas conforme o Boletim de Finanças dos Entes Subnacionais / Tesouro Nacional (ano-base 2024). Goiás recorreu e teve a nota revista de C para B+ na Capag 2025, com ajuste metodológico para entes em RRF. Demais estados não listados situam-se majoritariamente entre A e B. No total, 21 estados e o DF têm nota apta a crédito com garantia da União (A, A+, B ou B+).

Repare no que o mapa revela e o discurso político costuma esconder: São Paulo, a economia mais rica do país, tem nota C — a mesma faixa de Minas e Rio, que estão em socorro. Riqueza econômica não é o mesmo que saúde fiscal. E o Rio Grande do Sul, sozinho na pior nota, é o único D entre as 27 unidades.

A concentração: quatro endereços, metade do problema

O retrato agregado é este: os estados e o Distrito Federal devem cerca de R$ 827 bilhões à União. E a dívida não está distribuída de forma uniforme — está concentrada. Goiás, Minas Gerais, Rio de Janeiro e Rio Grande do Sul estão em Regime de Recuperação Fiscal, um programa de socorro que suspende temporariamente o pagamento da dívida em troca de contrapartidas de ajuste.

Figura 2 · A concentração
Quatro estados, 56,6% da dívida
Participação dos estados em Regime de Recuperação Fiscal na dívida total de R$ 827 bi com a União
GO + MG + RJ + RS (em recuperação fiscal) 56,6% · ~R$ 468 bi 43,4% demais 23 entes
Fonte: Ministério da Fazenda / Tesouro Nacional (estoque de dívida de estados e DF com a União). Mais da metade do problema fiscal subnacional concentra-se em quatro unidades.

Sozinhos, esses quatro respondem por cerca de R$ 468 bilhões — 56,6% de tudo que os 27 entes devem. Mais da metade do problema fiscal subnacional brasileiro mora em quatro endereços.

R$ 827 bi
dívida total de estados e DF com a União
4 estados
em Regime de Recuperação Fiscal: GO, MG, RJ, RS
56,6%
da dívida total concentrada nesses quatro (~R$ 468 bi)

A régua, traduzida

A Capag não é uma nota arbitrária. Ela combina três dimensões que, juntas, dizem se um estado consegue honrar seus compromissos: o endividamento em relação à receita, a poupança corrente (se o estado gera caixa depois de pagar o custeio) e a liquidez (se tem dinheiro para as obrigações de curto prazo). Um estado pode ter receita alta e ainda assim ir mal na Capag, se gasta tudo com pessoal e não sobra poupança — é exatamente o caso de São Paulo. Inversamente, um estado de arrecadação modesta mas disciplinado no custeio pode pontuar bem.

NotaO que significa, na prática
ABoa capacidade de pagamento. Endividamento baixo, poupança corrente sólida, liquidez confortável. Poderia tomar nova dívida com garantia da União. Ex.: Paraná, Bahia, Espírito Santo, MS, MT, Ceará.
BCapacidade intermediária. As contas fecham, mas há pelo menos um indicador sob pressão. Espaço fiscal limitado. Ex.: Goiás (B+, após recurso).
CCapacidade baixa. Dois ou mais indicadores no vermelho. Sem espaço para nova dívida garantida sem ajuste prévio. Ex.: São Paulo, Minas Gerais, Rio de Janeiro.
DSem capacidade de pagamento. O estado não consegue honrar compromissos sem socorro. É o degrau dos regimes de recuperação fiscal. Ex.: Rio Grande do Sul.

O caso que mostra que a régua mede mesmo

Se a Capag fosse só burocracia, não se moveria. Mas ela se move — e o caso mais ilustrativo de 2026 é o do Rio Grande do Sul. Depois de décadas figurando entre os estados de maior fragilidade fiscal, o RS deixou a nota D, a pior possível, e passou para C. Foi a primeira vez na série histórica da Capag, criada em 1995, que o estado saiu do degrau mais baixo.

O que produziu a mudança é a parte instrutiva, porque mostra quais alavancas realmente mexem o ponteiro. Pesaram a reforma da previdência estadual, que conteve o crescimento do déficit do sistema; mudanças na gestão de caixa que eliminaram a chamada dívida do caixa único; e a redução real do estoque de precatórios. Nenhuma dessas medidas é glamourosa. Nenhuma rende manchete fácil. Todas atacam os três indicadores que a Capag mede — e é por isso que funcionaram.

As medidas que movem a nota fiscal não rendem manchete. Atacam endividamento, poupança e liquidez — e é exatamente por isso que funcionam.

O caso oposto também ensina: Goiás, em RRF desde 2021, recorreu ao Tesouro alegando que a metodologia penalizava injustamente quem está em recuperação, e conseguiu rever a nota de C para B+ na Capag 2025. Mostra que a régua não é imutável — e que a disputa por trás de cada nota é técnica, não só política.

As três razões que explicam quase todo estado

Quando se olha a régua de longe, as posições dos estados se explicam quase sempre pelas mesmas três causas estruturais, em proporções diferentes.

A primeira é a folha de pessoal e a previdência. Estados que comprometeram a maior parte da receita corrente com salários e, sobretudo, com aposentadorias de regimes antigos e deficitários, têm pouca ou nenhuma poupança corrente. É a causa número um do mau desempenho fiscal subnacional no Brasil, e a que melhor explica por que São Paulo, mesmo riquíssimo, fica em C. Onde a previdência estadual foi reformada, a nota tende a melhorar; onde não foi, ela trava.

A segunda é o estoque de dívida herdado. Estados que entraram nos anos 2010 já muito endividados carregam um custo financeiro que consome receita antes mesmo de qualquer gasto novo. É por isso que Rio de Janeiro, Minas, Goiás e Rio Grande do Sul aparecem juntos no regime de socorro: não é coincidência geográfica, é acúmulo histórico de passivo.

A terceira é a base econômica e a arrecadação. Estados com economia diversificada e arrecadação resiliente absorvem choques melhor. Estados dependentes de poucas fontes — uma commodity, um setor, um repasse — ficam à mercê do ciclo. Quando a fonte vai bem, a conta fecha; quando vira, o buraco aparece rápido. O agro forte do Centro-Oeste, por exemplo, ajuda a explicar as notas A de Mato Grosso e Mato Grosso do Sul.

A leitura editorial

A tentação, num ano de eleição, é ler a Capag como placar de governo — cada nota virando mérito ou demérito de quem está no cargo. É uma leitura pobre, porque a nota fiscal de um estado é, em grande medida, herança: reflete decisões previdenciárias e de endividamento tomadas ao longo de décadas, por administrações de cores variadas. O que a gestão atual controla é a margem — e a margem importa, como o Rio Grande do Sul demonstrou ao sair do D e Goiás ao recorrer do C.

Para quem acompanha o mercado, a utilidade da Capag é outra e mais concreta. Ela é um indicador de risco de crédito subnacional que afeta o custo de captação dos estados, a precificação de operações com garantia da União, e a própria conta da União, que é a fiadora de última instância. Quando quatro estados concentram 56,6% de uma dívida de R$ 827 bilhões, o risco não é deles apenas. É de quem garante — e, no fim da linha, do contribuinte federal. A régua existe para que esse risco seja medido antes de virar conta. Vale lê-la pelo que ela é: um termômetro técnico, não um troféu eleitoral.