A Petros, fundo de pensão dos funcionários da Petrobras, anunciou recentemente um número que faria qualquer gestor brilhar: retorno consolidado superior a R$ 15 bilhões em 2025, a maior rentabilidade da história da fundação. A segunda maior entidade fechada de previdência complementar do país, com R$ 153 bilhões sob gestão e 133 mil participantes, entregou ano histórico em meio a um cenário de Selic em 15%.

O dado é real, foi confirmado em entrevista de Gustavo Gazaneo, diretor de Investimentos da Petros, ao NeoFeed Wealth Point, publicada em 3 de junho. E é parte de uma trajetória de três anos consecutivos com rentabilidade acima da meta atuarial, segundo a própria fundação. A pergunta editorial é: se está tudo tão bom, por que ainda existe déficit histórico?

A herança que ninguém quis assumir publicamente

A Petros tem dois tipos de planos. Os "planos maduros", de benefício definido (BD), onde o aposentado recebe valor pré-estabelecido independente da rentabilidade dos investimentos. E os "planos jovens", de contribuição variável (CV), onde a aposentadoria depende do que cada um acumulou.

O déficit histórico mora nos planos BD. Por décadas, o cálculo atuarial assumiu premissas de rentabilidade real elevadas — que não se materializaram em alguns ciclos. Hoje, a estratégia para fechar esse déficit é a chamada "imunização": casar fluxo de pagamentos futuros aos aposentados com títulos públicos federais indexados à inflação (NTN-B) com vencimentos correspondentes. Compra-se papel pra pagar a aposentadoria daqui a 20 anos, com cupom de 7% real.

"Hoje, cerca de 90% dos planos maduros já estão imunizados", afirmou Gazaneo na entrevista. A meta é chegar a 97-98% em cinco anos.

O que a "imunização" resolve — e o que não resolve

O conceito de imunização funciona assim: se a rentabilidade do passivo (o que o fundo deve pagar) é a inflação + meta atuarial, e a rentabilidade do ativo (NTN-B) é exatamente a inflação + cupom contratado, a posição fica "imunizada" contra movimentos de taxa de juros. O fluxo de caixa fecha. Independente do que aconteça com Selic, IPCA volátil ou crise de mercado, o passivo é pago.

Esta foi a virada de chave da Petros (e de boa parte dos fundos de pensão brasileiros). Aproveitar o cenário de NTN-B pagando 7%+ ao ano em real, em prazos longos, para travar o fluxo. Quando esse cenário existiu antes? Em 1999, talvez. Antes disso, mais raro. É uma janela rara que está sendo usada agora — e foi a base, principalmente, do retorno consolidado de R$ 15 bi em 2025.

Mas eis o ponto editorial. Imunizar o passivo não significa zerar o déficit. Significa garantir que o déficit não cresça e que os pagamentos continuem honrados. O déficit acumulado historicamente — pelos anos em que a meta atuarial não foi cumprida — permanece. Estudos atuariais ainda estão sendo discutidos para definir o tamanho exato e a estratégia de equacionamento.

O próprio Gazaneo, ao NeoFeed, foi direto: "Nossos estudos ainda não apontam que a gente pode fazer uma reversão nesse déficit. Mas, se a gente mantiver consistentemente esse retorno, os estudos vão apontar o que a gente pode fazer em prol do participante".

Quem paga a conta do déficit

A pergunta editorialmente desconfortável é essa. Em fundos de pensão de benefício definido, quando o passivo atuarial é maior que o patrimônio que vai pagá-lo, a diferença historicamente é coberta por uma combinação de três fontes: (1) contribuições adicionais dos participantes ativos, (2) contribuições adicionais do patrocinador (no caso, a Petrobras) e (3) renegociação de benefícios.

A Petros já passou por episódios de contribuição extraordinária e renegociação de planos em ciclos anteriores. O fato de a fundação ainda estar discutindo "o que pode ser feito em prol do participante" indica que, mesmo com três anos seguidos de rentabilidade acima da meta, a conta não está fechada.

A boa notícia é que o cenário atual — Selic alta, juros reais elevados, NTN-B disponível em volume e prazo — é o cenário ideal para imunização. A Petros está aproveitando bem. Mas o cenário não dura para sempre. Com Focus projetando Selic em 12,25% até dezembro e queda contínua nos anos seguintes, a janela vai estreitando.

O que importa pro participante

Para quem está nos planos maduros (BD), a imunização é boa notícia: garante que o que foi contratado, será pago. Para quem está nos planos novos (CV), o que importa é a rentabilidade do plano específico, e o Petros-2 — maior plano CV do país, com R$ 60 bilhões sob gestão — rendeu 15,25% em 2025, o melhor resultado desde sua criação em 2007.

Vale também notar a alocação atual: 78% em renda fixa, 12% em renda variável, 7% em estruturados, 2% em imobiliário, 0,2% em exterior. É uma carteira muito concentrada em renda fixa local — coerente com o cenário de Selic alta e juros reais atrativos, mas exposta a um risco de oportunidade caso o ciclo de queda acelere.

A leitura editorial

Há um padrão na comunicação institucional dos grandes fundos de pensão brasileiros: anunciar rentabilidade-recorde quando ela acontece, falar pouco sobre déficit estrutural mesmo quando ele permanece. Isso não é exclusividade da Petros — vale para Previ, Funcef, Postalis e quase todos os grandes fundos do sistema EFPC.

A imunização via NTN-B é estratégia tecnicamente competente e está sendo bem executada. Mas ela não é "solução" para o déficit histórico — é gerenciamento responsável de um problema que continua existindo.

O retorno-recorde da Petros em 2025 é real e merecido. Mas é também o resultado de um cenário macro raro (juro real alto) sendo capturado tecnicamente. A pergunta editorial não é "quanto rendeu". É: o que acontece quando o cenário mudar?

Como sempre na previdência complementar brasileira, a resposta longa fica para o atuário. A pergunta curta — quem paga se a conta não fechar — segue existindo, mesmo nos anos bons.